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sexta-feira, 9 de março de 2012

Aspetos psicológicos das lesões desportivas: prevenção e tratamento (I)

As lesões desportivas são um problema constante com o qual os atletas têm de lidar diariamente. Sendo vários os factores que estão na origem das mesmas, quer físicos, quer psicológicos, sendo estes últimos bastante relevantes, especialmente o stress. Dado que um atleta lesionado sofre várias repercussões psicológicas que o prejudicam na sua vida quotidiano e desportiva, dificultando o processo de reabilitação. Desta forma a psicologia aplicada ao desporto tem um papel fundamental na prevenção e tratamento de lesões desportivas.
Assim podemos dizer que uma lesão desportiva é uma lesão física contraída durante a participação em actividades desportivas de caráter competitivo e recreativo, que supõe uma disfunção do organismo que produz e leva à interrupção ou limitação de uma atividade desportiva (Buceta e col., 1996 citado por Zafra, Montalvo e Sámchez, 2006). De acordo com um estudo levado a cabo por Negão (1996 citado por Samulski e Azevedo, 2002), com 31 jogadores de futebol profissional, foram observadas 79 lesões que obrigavam à interrupção do treino físico, sendo que 48, 38% destas lesões suficientemente severas levaram ao afastamento dos atletas das competições durante cerca de 7 dias, e 22,58% das lesões impediram os atletas de competir de 8 a 14 dias. Cerca de metade dos atletas que praticam desporto de alta competição sofrem uma lesão que os impossibilita de praticarem desporto, e cerca de 25% destas lesões requerem, pelo menos uma semana de repouso (Hardy e Crace,1990 citado por Zafra, 2008; Palmi, 2001).
São milhares os atletas, por todo o mundo que sofrem lesões todos os anos. Lesões que envolvem imensos custos no processo de reabilitação (Petitpas e Brewer, 2004),desta forma torna-se extremamente necessário intervir na prevenção das lesões e compreender tudo o que estas envolvem, para que a recuperação seja mais rápida e menos dispendiosa, quer para o atleta, quer para o clube onde está inserido. Mas para isso é necessário que os clubes comecem a ter a noção que é fundamental terem profissionais devidamente qualificados, nas áreas da psicologia, fisioterapia, preparação física, nutrição e medicina. E não terem pessoas, como acontece em vários clubes, com um mero curso de massagista, que qualquer pessoa pode tirar que faz o lugar de um fisioterapeuta. Pois os clubes em que esta situação acontece têm de começar a perceber que um massagista não é um fisioterapeuta. Sendo que, este último tem uma formação muito mais rigorosa que a de uma massagista. Já para não falar nos clubes em que isto acontece em que o massagista se acha superior aos restantes profissionais, querendo por vezes “mandar” no trabalho da equipa técnica.
O aumento da participação no desporto, quer de competição, quer de lazer tem sido acompanhado pelo aumento concomitante das lesões desportivas (Smith, 1996 citado por Carvalho, 2009).
São várias as causas físicas das lesões desportivas, no entanto, incontestavelmente, os fatores psicológicos têm um peso relevante neste aspeto, tal como na recuperação de uma lesão já contraída (Williams e Roepke, 1993). Sendo que, as lesões desportivas têm sempre implicações físicas e emocionais nos atletas (Florean, 2002 citado por Carvalho, 2009).
A procura do rendimento máximo durante um número considerável de competições, assim como o aumento da carga de trabalho durante os treinos são responsáveis pelo crescimento progressivo do número de lesões (McDonald e Hardy, 1990 citado por Mendo, 2002). Segundo um estudo levado a cabo por Zafra e col. (2006) no qual avaliaram futebolistas, os autores concluíram que quando estes gerem de forma adequada a avaliação do seu rendimento tendem a ter menos lesões, contrariamente aos atletas que têm um alto nível de auto-confiança, que estão mais propensos à contracção de lesão. Por sua vez, Palmeira (1998 citado por Carvalho, 2009) num estudo que levou a cabo, conclui que os atletas que são mais extrovertidos têm menor taxa de lesões, dado que estes atletas têm uma melhor rede de suporte social, comunicam melhor e alertam os seus companheiros e treinadores sobre uma situação de risco mais rapidamente que os atletas introvertidos. Por outro lado, indivíduos que pensam demasiado acerca da possibilidade de terem uma lesão criam mais expectativas sobre as situações que podem originar stress, diminuindo desta forma a sua resistência às mesmas.
Para Palmeira (1998 citado por Carvalho, 2009) os acontecimentos de vida stressantes e outras variáveis psicossociais são importantes na previsão da variação das lesões desportivas. No entanto, num estado conduzido por Dunn, Smith e Smoll (2001) verificou-se a diferença entre homens e mulheres, sendo que a vulnerabilidade às lesões desportivas, nas mulheres é mais acentuada que tendo em consideração os acontecimentos stressantes específicos do desporto, isto é, as situações desportivas stressantes têm mais influência na susceptibilidade a uma lesão que os acontecimentos vida gerais.
O otimismo e o vigor diminuem o tempo de paragem após uma lesão. Atletas com que são mais optimistas, que têm mais vigor ou auto-estima global, lidam de forma mais eficaz com as mudanças de vida mais stressantes, havendo desta forma uma diminuição da vulnerabilidade de contraírem uma lesão (Ford, Eklund e Gordon, 2000). Já para Galambos, Terry, Moyle e Locke (2005 citado por Carvalho, 2009) mencionam que o stress e o humor são considerados fatores predisponentes significativos das carateristicas de uma lesão desportiva.
Como é óbvio as lesões desportivas provocam bastantes efeitos danosos no funcionamento físico dos atletas, no entanto, estas também poder trazer efeitos negativos em vários aspectos do funcionamento psicológico dos mesmos, levando a um prejuízo quer nos treinos quer no desempenho dos próprios atletas (Bajin e col., 1982 citado por Samulski e Azevedo, 2002). A lesão poderá também ter um impacto adverso nos pensamentos, sentimentos e ações dos atletas. No que respeita aos pensamentos do atleta, a lesão desportiva está associada a uma redução da auto-estima e auto-confiança física, tal como a uma elevada confusão. Do ponto vista emocional, é perfeitamente compreensível que os atletas experienciem sentimentos de raiva, depressão, confusão, medo, frustração e preocupação aquando da contracção da lesão. Além disso, alguns atletas mencionam que a lesão diminui a sua auto-estima. Mais tarde quando tomam consciência da lesão, entram em choque e experienciam sentimentos de incerteza e medo de se tornarem vulneráveis e perderem a sua independência (Carvalho, 2009).
Os efeitos psicológicos das lesões desportivas dependem do tipo e da gravidade da lesão e, como não poderia deixar de ser, do próprio atleta (Estrada, 2007 citado por Carvalho, 2009). No entanto, de acordo com Tracey (2003) os atletas que dão mais importância ao momento de contracção da lesão do que ao tipo de lesão e sua gravidade, são mais afetados psicologicamente.
São vários os autores que me mencionam nos seus estudos que as consequências negativas das lesões afetam o bem-estar psicológico dos atletas e que estas poderão comprometer o seu equilíbrio e saúde mental, através de sintomas, como a depressão, medo, desespero, frustração, impaciência e não adesão ao plano de tratamento.
Segundo Heil (1993) a lesão é um desafio físico e psicológico que o atleta terá de superar. Assim sendo, a psicologia aplicada às lesões desportivas tem como objetivo limiar o sofrimento psicológico associado à lesão do atleta e garantir boas condições para que este volte à competição.
Desta forma, a intervenção psicológica nas lesões desportivas tem um caracter social devido a duas razões: 1) a importância da epidemiologia das lesões desportivas a nível social, e a 2) concomitância de fatores sociais na etiologia destas lesões (Mendo, 2002). No entanto, neste tipo de intervenção psicológica temos que distinguir entre factores propícios à necessidade de uma intervenção e as razões que justificam a mesma. De acordo com o autor mencionado, as razões que justificam a intervenção psicológica são dais mais variadas índoles. No entanto, estas índoles podem ser agrupadas em dois grupos: 1) razão de natureza pessoal e relacional – quando um atleta se lesiona torna-se num ser limitado nas suas condições físicas e à parte do mundo no qual vive (Palmi, 1988 citado por Mendo, 2002) e 2) razões meramente desportivas e económicas.
A família e os colegas de equipa desempenham um papel extremamente importante no processo de recuperação do atleta, dado que são importantes fontes de suporte social (Klenk, 2002). Todavia, a eficácia da intervenção psicológica perante lesões desportivas depende, em grande parte do próprio atleta. Este papel decisivo no sucesso de tratamento, contribuindo com bons níveis de iniciativa própria, auto-motivação e responsabilidade (Samulski e Azevedo, 2002). Segundo Larson e col. (1996 citado por Weinberg e Gould, 2003), os atletas que lidam de forma eficaz com uma lesão são aqueles que cumprem de forma adequada o plano de recuperação, que têm uma atitude positiva perante a lesão, que são mais motivados, dedicados, determinados, e que fazem perguntas obtendo informação sobre a sua lesão.
Ramires (s/d) faz uma descrição dos atletas que têm mais dificuldade em recuperarem de uma lesão, referindo que estes apresentam uma atitude mental negativa, ignorando as recomendações da equipa médica, têm falta de motivação, as respostas emocionais reaccionais à lesão são muito intensas, têm ausência de suporte social, baixa auto-confiança e falta de objetivos desportivos bem definidos.
Para entendermos que tipo de intervenção psicológica preventiva poderá ser aplicada às lesões desportivas, é necessário sabermos quais os fatores psicológicos predisponentes da lesão, tal como é necessário saber quais as reações psicológicas dos próprios atletas às lesões para que uma intervenção pós-lesão possa ser efetuada.
No próximo artigo sobre esta temática será desenvolvido o tema Fatores psicológicos predisponentes da lesão desportiva.


Cristina Machado
(Psicóloga) 

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